segunda-feira, 13 de novembro de 2017



É preciso esperar o momento que talvez não venha, conservar uma serenidade que não é própria ao homem, colocar o melhor de si mesmo num vácuo que talvez não venha a ser preenchido. E, por isso, não queimar as pontes, nunca abandonar uma alma. (...) Nunca desesperar de ninguém.

Por Jean Vieujean, em Teu outro eu
• Desenho de Rui Cavaleiro Azevedo



São Felipe Neri, o santo da alegria, usava com frequência invocações deste gênero: "Se Vós não me ajudardes, Senhor, cairei... Se quereis alguma coisa de mim, derrubai todos os obstáculos... Jesus, eu desconfio de mim, mas tenho confiança em Vós". Seguindo-lhe o exemplo, o Pe. Olivaint dizia: "Senhor, desconfiai de mim, porque, se não tiverdes cautela comigo, amanhã vos atraiçoarei". Estamos em boa companhia para testemunharmos a Deus a confissão humilde da nossa fraqueza.

sábado, 11 de novembro de 2017



A autenticidade não é mera mania de dizer verdades inconvenientes, mas a virtude de se ver constantemente no amor e no desejo de fazer o outro feliz. Perder-se no amor por alguém é encontrar-se como ser humano que para existir precisa de um outro a quem reconheça como o ser humano mais importante do mundo para si.

Por Luiz Felipe Pondé, em Amor para corajosos

sexta-feira, 10 de novembro de 2017



Há pessoas que esperam a vida inteira um futuro em que poderão, enfim, começar a viver: ora, esse futuro não ocorrerá jamais. Seu pensamento sempre se adianta ao que não existe, mas é impotente diante do que existe. Elas se assemelham ao prisioneiro que só vive da esperança de uma liberdade que talvez jamais lhe seja dada, ou que talvez ele jamais saiba empregar. Para elas, no entanto, a morte sempre sobrevém no período de espera; elas só têm atrás de si, então, uma existência vazia. É que, como esperavam para viver, só esperavam para morrer. Entre o sofrimento que um momento do tempo nos proporciona e a felicidade que outro momento nos promete, existe uma diferença de grau que não raro é ilusória. Mas entre o presente do ser e o nada da espera há o infinito.

Por Louis Lavelle, em A Consciência de Si

quinta-feira, 9 de novembro de 2017



Outros entardeceres haverá em que os nossos olhos se
encontrarão para mais uma despedida. E num novo
adeus, brindaremos em silêncio a esse
velho futuro que perdemos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017



Despedir-se é negar a separação, é dizer: Hoje fingimos que nos separamos, mas ver-nos-emos amanhã. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingentes e efémeros.

Por Jorge Luis Borges, em O Fazedor

sexta-feira, 3 de novembro de 2017



És
para meu desespero
Como as nuvens que andam altas
Todos os dias te espero
Todos os dias me faltas.

Por João Linhares Barbosa, em Os teus olhos são dois círios

quinta-feira, 2 de novembro de 2017



Não entendo nada da vida – nunca entendi nada da vida! A cada noite mal dormida, entendo menos da vida. Contudo, existem horas, as horas perdidas - e só essas - que queria tornar a viver e a perder.



A vida... eis o que eu dava para
te abraçar só mais uma vez!



“Quem crê em Mim, mesmo que tenha
morrido, viverá.” (Jo 11, 25)

Não devemos chorar os nossos irmãos que a chamada do Senhor retirou deste mundo, pois sabemos que não se perderam, mas partiram antes de nós: deixaram-nos como viajantes, como navegantes, para nos precederem. Devemos portanto invejá-los em vez de os chorar, e não devemos vestir-nos, aqui em baixo, com roupas escuras enquanto, lá no Alto, eles envergam vestes brancas. Não demos aos pagãos oportunidade de com razão nos reprovarem por lamentarmos aqueles que declaramos vivos junto de Deus, como se estivessem aniquilados e perdidos. É que traímos a nossa esperança e fé se o que dizemos parece fingimento e mentira. De nada serve afirmarmos por palavras que temos coragem e destruirmos por atos a verdade dessa afirmação (…).

Quando morremos, passamos, pela morte, à imortalidade; e a vida eterna não pode ser-nos dada se não sairmos deste mundo. Não se trata de um ponto final, mas de uma passagem. No termo da nossa viagem no tempo, encontra-se a nossa passagem para a eternidade. Quem não se apressaria em direção a um bem maior? Quem não desejaria ser mudado e transformado à imagem de Cristo?

A nossa pátria é o céu (…). Aí nos espera um grande número de seres queridos, somos desejados por uma multidão imensa de pais, de irmãos e de filhos; seguros já da sua salvação, eles pensam na nossa. (…) Apressemo-nos em chegar até eles, seja nosso desejo ardente irmos depressa para junto deles e de Cristo.

Por São Cipriano (c. 200-258), bispo de Cartago e mártir, em Sobre a morte § 20; PL 4, 596s

sábado, 28 de outubro de 2017

quarta-feira, 18 de outubro de 2017







Não me leia as palavras - leia antes os meus silêncios. Busca-me nos caminhos por onde ando. Revira os meus erros e as minhas derrotas, as esperas pacientes e infinitas. Conheça as minhas pequenas vitórias. Auxilia-me quando eu tombo, e também nas vezes em que me reergo ferido. Decifra o que não digo todos os dias. Advinha o que não escrevo.

terça-feira, 17 de outubro de 2017



Infinitamente melhor é voltar! Quando retorno para casa, antes mesmo de colocar a chave na porta, vejo as sombras pacíficas dos objetos e dos recantos que me pertencem. Bastam-me esses segundos que antecedem o meu regresso para compreender bem que em nenhum outro lugar do mundo sou tão feliz.

terça-feira, 10 de outubro de 2017



O que sou eu nos olhos da maioria – uma nulidade ou um homem excêntrico ou desagradável – alguém que não tem uma situação na sociedade e que não terá; enfim, um pouco menos que nada. Bom suponha que seja exatamente assim, então eu gostaria de mostrar por minha obra o que existe no coração de tal ‘excêntrico’, de tal nulidade. Esta é a minha ambição. Ainda que frequentemente eu esteja na miséria há, contudo, em mim, uma harmonia e uma música calma e pura. Na mais pobre casinha, no mais sórdido cantinho, vejo quadros e desenhos. E meu espírito vai nesta direção por um impulso irresistível. Não é tanto a língua dos pintores, mas a língua da natureza que é preciso dar ouvidos. Sentir as coisas, a realidade, é mais importante que sentir os quadros. Porque tenho da arte e da própria vida, de quem a arte é essência, um sentimento tão vasto e tão amplo, que acho irritante e falso quando vejo pessoas posando de acadêmicos. Em todo caso, se as pessoas acham bom ou ruim o que faço e como faço, de minha parte eu não vejo outro partido a tomar além de lutar com a natureza por tanto tempo quanto necessário porquanto ela me confiar seus segredos.

Por Vicente Van Gogh - Pequeno trecho de “Cartas a Theo”