sábado, 22 de julho de 2017



Santa Maria Madalena, discípula de Jesus
“Porque muito amou, muito lhe foi perdoado.”

A mulher pecadora

Foi tão prodigiosa a conversão de Maria Madalena, que, de uma criatura impura e tão infectada como era, se tornou um vaso puro e cristalino, capaz de receber o licor da graça com que depois perfumou o seu Salvador; e aquela que pelos seus pecados era um vaso de mau odor veio a ser, pela sua conversão, uma flor de delicioso aroma. E, quanto mais gangrenada estava pelo pecado, tanto mais a graça a purificou e regenerou, à semelhança das flores que se alimentam e desabrocham no meio de uma matéria fétida e pútrida, pois, quanto mais esterco tem a terra, tanto mais as flores lá plantadas crescem e adquirem cores resplendentes.

Assim, esta santa que estivera toda manchada pelo pecado, tornou-se tão bela pela contrição e pelo amor com que fez penitência, que com muita razão a podemos denominar advogada de todos os cristãos e filhos da Igreja que, tendo sido pecadores, não querem voltar a sê-lo, mas purificar-se do seu passado. Porque essa mulher foi pecadora, como nos diz a Escritura – havia uma mulher pecadora na cidade (Lc. 7, 35) -, saiu do seu pecado, pediu perdão ao seu Deus com verdadeira contrição e com um firme propósito de não recair, e assim estimula todos os pecadores a seguir os seus passos.

Assim como tinha ofendido a Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com quase todos os seus sentidos, assim também se entregou à penitência com todo o coração, com toda a alma e com todos os seus sentidos, sem reserva alguma. Por isso podemos chamá-la advogada dos pecadores, porque os superou a todos em penitência...

Vemos geralmente que os homens que receberam alguma ofensa exigem uma satisfação proporcionada ao mal causado; se, por exemplo, lhes roubaram um escudo, querem que lhes seja restituído um escudo. Na lei antiga, quem desse uma bofetada tinha de receber outra, e quem arrancasse um olho ou um dente ao seu irmão devia submeter-se ao mesmo castigo: Olho por olho, dente por dente (Lev. 24, 20). Essa lei foi abolida entre os homens. Mas o Senhor não deixa de pedir que, na medida do possível, compensemos a falta cometida, fazendo por Ele tanto como fizemos ofendendo-O.

Não é exigir muito de nós, já que se, atraídos pelo mundo, fomos capazes de empregar o nosso coração, a nossa alma e afetos, os nossos sentidos, em servir o mal, não é justo que, atraídos pela graça, os empreguemos em servir o amor divino sem reservas?

Em segundo lugar, Mara Madalena é também advogada dos justos. Não lhe é dado o nome de virgem, mas a verdade é que o merece pela perfeita pureza em que viveu depois da conversão. Pode-se dizer, além disso, que alcançou um amor de certo modo superior ao dos próprios Serafins, porque estes fruem do amor divino sem trabalho e sem trabalho o conservam, ao passo que a santa o adquiriu à custa de muitos esforços e cuidados, e o conservou com temor e solicitude. Deus, em recompensa, deu-lhe um amor ardente e firme, acompanhado de grande pureza... Por isso é advogada dos justos, porque nada mais podia fazê-la mais justa que esse amor, acompanhado de uma humildade e uma contrição que a mantinham sempre aos pés do Salvador.

O Senhor restabeleceu Santa Maria Madalena na virgindade, não na virgindade essencial, mas reparada, e esta torna-se às vezes mais excelsa do que aquela que, não tendo tido mancha alguma, é acompanhada de menos humildade.

Nunca Maria Madalena teria tido tanto amor ao seu Salvador se Ele não lhe tivesse perdoado tanto; e Ele nunca lhe teria perdoado tanto se ela não tivesse pecado tanto. Vede, pois, este grande artista da misericórdia: converte as nossas misérias em graças e, da víbora das nossas iniquidades, extrai o remédio salutar para as nossas almas.

Por São Francisco de Sales, Doutor da Igreja, em Tratado de Amor a Deus

Maria Madalena é uma personagem feminina do Novo Testamento. Provavelmente natural de Magdala (daí o nome Madalena), foi uma das “piedosas mulheres” que acompanhavam Jesus, que a havia libertado de sete demônios. Assistiu à crucifixão e à deposição de Cristo e foi testemunha da Ressurreição do Mestre. Tradicionalmente é identificada com a anônima “pecadora arrependida” de que fala São Lucas, aquela que perfumou os pés de Jesus, banhou-os com suas lágrimas e enxugou-os com os próprios cabelos; a sua figura representa, para a cristandade, o símbolo da penitente. A Igreja romana, seguindo são Gregório Magno, além de a identificar com a “pecadora”, também a apresenta frequentemente com Maria de Betânia, irmã de Lázaro, e celebra as três Marias com uma única festa. A Igreja grega, ao contrário, seguindo Orígenes, distingue as três figuras, celebrando três festas diferentes.

domingo, 16 de julho de 2017








Concedei-me vossas graças,
Virgem do Carmo, Maria,
pois o santo Escapulário
levo com fé, noite e dia.
 
Festa da Igreja: Nossa Senhora do Carmo

Ó Imaculada Virgem Maria do Carmo, dulcíssima Mãe de Deus, Rainha dos Anjos, Advogada dos pecadores e seguro consolo dos atribulados! Escutai, benigna, eu vos suplico, os rogos deste vosso miserável servo e concedei-me, por vossa graça, seja eu do número daqueles que vós amais e bondosamente favoreceis.

Purificai, ó Virgem meu coração de toda a imundície do pecado; afastai de mim tudo o que desagrada aos vossos castíssimos olhos; livrai a minha alma de todo afeto terrestre, inspirando-me amor pelos bens celestiais e eternos; fazei, benigníssima Senhora, que este amor seja meu único afã, o único móvel de todos os meus pensamentos e afetos.

Rogai, agora e sempre, por mim, ó Virgem Sacrosanta! E, mui particularmente, naquele tremendo momento em que estiver próximo a dar conta de todas as minhas obras e de toda minha vida ao justo e severo Juiz dos vivos e dos mortos.

Não me abandoneis, não vos aparteis de mim, ó Virgem gloriosa e bendita, já que com todo o afeto que me é possível, encomendo à vossa piedade e caridade a salvação da minha pobre alma e a pureza do meu miserável corpo.

Defendei-me, Senhora, de todos os males e de todos os perigos deste mundo, e dignai-vos interceder por mim a vosso divino Filho, para que logre eu o perdão de todos os meus pecados, dos quais me arrependo, sinceramente, por ter ofendido com eles a um Deus infinitamente digno de ser amado.

Dai-me, ó doce e carinhosa Mãe, uma verdadeira fé, uma firme esperança e uma caridade ardente, e alcançai-me a graça do Espírito Santo, com a qual possa fazer, sempre e em toda a parte, a sua justíssima e santíssima vontade. Dignai-vos, por vossa piedade e clemência, ó Gloriosa Rainha do Monte Carmelo, preservar-me das provações, da peste, da fome, da guerra e, principalmente, de toda a blasfêmia e de todo o pecado mortal.

Protegei-me, e do mesmo modo a meus parentes, amigos e a todos os fiéis cristãos, contra todos os males espirituais e corporais; e não olvideis o Soberano Pontífice e demais prelados e sacerdotes da Igreja, que tanto têm de lutar contra os inimigos da congregação, redimida por Jesus Cristo, vosso Divino Filho.

Recomendo-vos também, ó Bondosa Senhora, as santas almas do Purgatório; suplicai, intercedei e interponde a vosso todo poderoso Jesus, para que as livre daquelas vingadoras chamas, e colocadas no céu, gozem ali eternamente da glória de vossa companhia e roguem a Deus por mim, infeliz pecador. Amém.

Por S. S. Leão XIII
 
Nossa Senhora do Carmo

A ordem dos Carmelitas tem como modelo o profeta Elias e caracteriza-se por uma profunda devoção a Maria. A Sagrada Escritura fala da beleza do Monte Carmelo, onde o profeta Elias defendeu a fé do povo de Israel no Deus vivo e verdadeiro. Carmelo em hebraico significa "vinha do Senhor". Ali Elias enfrentou os profetas de Baal. Segundo o Livro das Instituições, Elias teve uma visão em que a Virgem lhe apareceu sob a figura de uma pequena nuvem que saía da terra e se dirigia ao Carmelo. Em 93, os monges construíram sobre o Monte Carmelo uma capela em honra à Virgem Maria. As gerações de monges sucederam-se através dos tempos. Em 1205, o patriarca de Jerusalém deu-lhes uma Regra baseada no trabalho, na meditação das Escrituras, na devoção a Nossa Senhora, na vida contemplativa e mística. Entretanto, ainda no século XIII, os muçulmanos invadiram a Terra Santa. Os eremitas do Monte Carmelo fugiram para a Europa. Nesta época, tinham como superior geral São Simão Stock. Enquanto rezava, pedindo a Nossa Senhora que fosse a protectora da Ordem dos Carmelitas, recebeu das mãos de Nossa Senhora do Carmo o escapulário: «Eis o privilégio que te dou à ti e a todos os filhos do Carmelo: "todo o que for revestido desse hábito será salvo".»



O caráter do homem é o seu destino.
Por Heráclito
Fragmento 119



A falta de zelo; a falta de sentimento do dever é nosso primeiro defeito moral. Força é contudo aceitar suas consequências, procurando, aliás, destruir esse mal que nos vai tornando tão fracos. (...) o amor da pátria só é uma palavra – para a maior parte!

Por Dom Pedro II, citado por Cecília Meireles, em “Escolha seu sonho: crônicas”

quarta-feira, 12 de julho de 2017



É tão pouco o tempo que dedicamos aos velhos! Agora que eu também sou um deles, quantas vezes, na solidão das horas que inevitavelmente acompanham a velhice, lembro compungido aquele seu último aceno e observo com tristeza o desamparo que os anos trazem, o abandono a que os homens de nosso tempo relegam os idosos, os pais, os avós, essas pessoas às quais devemos a vida. Nossa "avançada" sociedade deixa de lado quem não produz. Meu Deus, abandonados a sua solidão e a suas ruminações! Quanto de respeito e gratidão perdemos! Que imensa devastação os tempos causaram à vida, que tremendos abismos se abriram com os anos, quantas ilusões foram assoladas pelo frio e pelas tormentas, pelo desengano e pela morte de tantos projetos e seres que amávamos! (...) Enquanto escrevo a vocês, volta a imagem de minha mãe que deixei tão sozinha em seus últimos anos. Tempos atrás escrevi que a vida é feita em rascunho, o que sem dúvida lhe dá transcendência, mas nos impede, dolorosamente, reparar nossos erros e abandonos. Nada do que foi volta a ser, e as coisas, os homens e as crianças não são o que foram um dia. Que horror e que tristeza, o olhar da criança que perdemos!

Por Ernesto Sabato, em A Resistência
- Recomendo vivamente a leitura do livro.

domingo, 9 de julho de 2017


“Borges no Central Park”, por Diane Arbus, 1969.

  O remorso

 Cometi o pior desses pecados
Que podem cometer-se. Não fui sendo
Feliz. Que os glaciares do esquecimento
Me arrastem e me percam, despiedados.
Plos meus pais fui gerado para o jogo
Arriscado e tão belo que é a vida,
Para a terra e a água, o ar, o fogo.
Defraudei-os. Não fui feliz. Cumprida
Não foi sua vontade. A minha mente
Aplicou-se às simétricas porfias
Da arte, que entretece ninharias.
Valentia eu herdei. Não fui valente.
Não me abandona. Está sempre ao meu lado
A sombra de ter sido um desgraçado.

Por Jorge Luis Borges, em La Moneda de Hierro