quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018



Quarta-feira de Cinzas

Pela imposição das cinzas, recebemos hoje o convite oficial da Igreja para fazermos penitência: “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”. A cinza é símbolo de penitência pelos pecados que trouxeram a morte para este mundo. As orações da bênção e imposição das cinzas e as da Missa nos fazem penetrar no espírito da penitência cristã; humilde submissão, unida a uma grande confiança na misericórdia de Deus. Enquanto a Epístola nos põe diante dos olhos um exemplo comovente de penitência, o jejum, Jesus Cristo nos ensina no Evangelho que este jejum deve ser antes de tudo interior. Se antigamente só os pecadores públicos recebiam as cinzas, mais tarde foi estendida esta prática a todos os fiéis, pois todos devem sentir-se e confessar-se pecadores e fazer penitências.

Texto retirado do Missal Quotidiano – Dom Beda Keckeisen, O.S.B. – Edição de 1961

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Não é por acaso que muitas pessoas se convertem às portas da morte ou num momento traumático. Se andávamos distraídos das questões fundamentais, a experiência da fragilidade extrema torna-se libertadora - faz-nos sentir quão pequenos somos; e quão próximos vivemos do transcendente. A conversão não é senão uma rendição à verdadeira humildade; finalmente, reconhecemo-nos onde sempre estivemos: nas mãos de Deus.

Na vida, buscamos satisfazer os sentidos, as necessidades, à medida em que vão surgindo. Se temos fome, comemos; se temos sede, bebemos; se precisamos de alguma coisa, compramos. Acreditamos que satisfazer os desejos é o caminho da verdadeira felicidade. Como nos equivocamos! Um desejo satisfeito abre a porta para outro desejo. Maior ou diferente. E assim vamos, em um círculo interminável. Saber renunciar nos torna mais livres e, portanto, mais capazes de sermos verdadeiramente felizes.

Estamos acostumados a ter tudo facilmente. Nesta sociedade do bem-estar, nós nos habituamos rapidamente às coisas boas. O aburguesamento da alma é paulatino, lento, mas crescente. A alma vai perdendo força, ímpeto e adormece. Vai se enfraquecendo quase sem percebermos. Aproveitemos, pois, deste tempo da Quaresma!

A Quaresma é um tempo privilegiado para buscarmos mais momentos de oração, para contemplarmos o Senhor no Santíssimo Sacramento, para lermos a Bíblia e saborearmos a Palavra de Deus.

Tempo para meditarmos sobre a própria vida à luz de Nossa Senhora, tempo para discernirmos os caminhos que precisamos seguir. Tempo para lermos livros de espiritualidade que despertem novas perguntas em nós. Tempo para enxergarmos Deus na nossa vida, no silêncio, no escondido. Tempo para voltarmos nosso olhar para o próprio coração.



Quaresma

Afirmam os santos padres (como se pode ver em Cornélio a Lapide, Bellarmino, etc.) que foi a Quaresma instituição dos Apóstolos, para honrarmos e imitarmos o jejum de Cristo Nosso Senhor, satisfazermos à Justiça divina, e assim preparar-nos à digna celebração da Páscoa. Nesse tempo sagrado, substituindo a Igreja o luto às profanas alegrias, bradando a Deus a implorar o seu auxilio, a pedir-lhe a conversão dos pecadores, exorta-nos, e como que nos obriga, a entrarmos em contas conosco. Façamos-lhe a vontade, cumpramos com o preceito do jejum e juntemos a essa penitência exterior a do coração, sondando o abismo da nossa consciência, lavando os pecados nas lágrimas da compunção e no sangue de Cristo, frequentando mais os sacramentos, ouçamos Missa todas as vezes que pudermos, apliquemo-nos à lição espiritual, à oração, à consideração das verdades eternas, à pratica das boas obras, façamos esmolas mais generosas, sirvam as nossas privações para sustento do pobre. Desta sorte apagaremos, nestes dias da salvação, nossas culpas passadas, e fortalecer-nos-emos contra as tentações futuras. Foi religiosamente praticado este jejum desde o tempo dos Apóstolos. Que vergonha para nossa tibieza e covardia a piedade e o rigor dos primeiros cristãos! Privavam-se, não só da carne, como de muitos outros alimentos; era depois das vésperas a única refeição do dia: comiam só para não morrer, sem tantas sensualidades. Só nos princípios do século XIII consentiu a Igreja que adiantassem até ao meio dia a refeição da tarde. Asseveram São Bernardo e Pedro Blezense (12º século) que bem como eles jejuavam os fiéis até a boca da noite. (...) Unamos cada dia nosso jejum ao de Cristo Senhor Nosso, em testemunho da nossa obediência à Igreja nossa Mãe, do nosso agradecimento por tantos benefícios, para expiação dos nossos pecados e dos de nossos irmãos, para alivio das almas do Purgatório, e para alcançar a graça de livrar-nos de tal pecado e de praticar tal virtude.

Texto retirado do livro “Manual do Christão”, de Goffiné, edição de 1933.

Algumas instruções sobre a Quaresma

Jejum

- Comer mais daquilo que não se gosta e menos das coisas preferidas;
- Comer normalmente nas refeições, mas não comer nada entre o café da manhã e o almoço, nem entre o almoço e o jantar;
- Atrasar em 15-30 minutos as refeições, se possível (não se faz isso se for prejudicar a rotina da família ou do trabalho); não tomar líquidos durante a refeição, e mesmo entre as refeições (se a saúde permitir);
- Abster-se de prazeres lícitos, como ouvir música, cigarro, sobremesa, açúcar;
- Levantar-se 15-30 minutos mais cedo; não dormir após o almoço;
- Dedicar-se com diligência às necessidades da casa, como lavar os pratos, varrer, ajudar no jardim, etc;
- Suportar sem queixa o frio ou o calor;
- Moderar o uso de adornos e maquiagens;
- Rezar de joelhos por um tempo maior do que se está habituado;
- Não perder tempo com superficialidades; diminuir notavelmente o uso do celular e internet, servindo-se para aquilo que é necessário;

Esmola

- Emprestar prontamente o que nos pedem, sem apego;
- Aumentar um pouco, sendo isso possível, durante a Quaresma, a ajuda material que se faz a alguém ou instituição de modo regular;
- Oferecer alguma leitura, se a ocasião se apresenta, que seja piedosa a uma pessoa que precise;
- Consolar e encorajar as pessoas que se mostram desanimadas na prática da virtude; aproximar-se de alguém com a qual se tem antipatia, e ajudá-la prontamente; perdoar aquela pessoa para com a qual se guarda rancor (rezar pedindo essa graça);
- Visitar algum doente e/ou algum membro da família que precise;

Oração

- Sendo possível, rezar mais vezes a Santa Missa e o Rosário;
- Retificar as intenções antes de agir, agindo não para ser estimado ou reconhecido, mas para agradar a Deus;
- Oferecer a Deus as calúnias recebidas, humilhações, insucessos – queixar-se menos;
- Rezar a Via Sacra nas 6ªs.-feiras;
- Visitar com maior frequência o Santíssimo Sacramento;
- Obedecer prontamente; falar bem de uma pessoa para com a qual se tem inveja, e rezar por ela;
- Ser fiel à oração mental diária;
- Dispor-se para a leitura espiritual todos os dias, em horário fixo (após café da manhã, ou antes de dormir, por exemplo);
- Fazer exame de consciência antes de dormir, ou mesmo em três momentos do dia (antes do almoço: o que fiz até o almoço; antes da janta: o que fiz entre o almoço e a janta; antes de dormir);
- Estudar sobre algum ponto do catecismo ou da doutrina católica que ignora ou sabe que conhece de modo fraco;
- Ler a biografia de um santo;
- Examinar qual é o defeito dominante e fazer sérios esforços para vencê-lo;
- Oferecer algum sacrifício pelas almas do Purgatório;
- Instruir-se sobre as cerimônias da Semana Santa, para assisti-las com maior devoção.

Dias de jejum com abstinência de carne

- Quarta-feira de cinzas; e,
- Sextas-feiras da Quaresma.

Dias de jejum sem abstinência de carne

- Quartas-feiras da quaresma; e,
- Quinta-feira Santa.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018



Quantos mortos trago vivos
no fundo do coração,
e dentro em mim quantos vivos
há muito mortos estão!...

Pelo trovador Belmiro Braga

sábado, 10 de fevereiro de 2018



Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular. Fora de casa, tínhamos os teatros animados, as partidas das amigas, mil outras distrações que davam à minha vida certas alegrias exteriores em falta das íntimas, que são as únicas verdadeiras e fecundas.

Por Machado de Assis, no conto Confissões de uma viúva moça

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018



Filtrando maus acordos

Se o homem faz de si mesmo um verme, ele não deve se queixar quando é pisado.
Por Immanuel Kant

Antes de pensar em entrar num relacionamento, deve-se considerar o que se quer, o que se está disposto a oferecer, e então pensar num bom acordo para ambos. Tirar um tempinho para tais considerações pode poupar meses e/ou anos de ressentimento e frustração.

Existem circunstâncias onde o homem pode poupar muita dor de cabeça ao analisar o que as mulheres estão propagandeando, e evitar de se investir em relacionamentos com elas, se os prospectos forem ruins para si. Aqui entra a interpretação da informação dada. Exemplos: “eu quero um homem bem resolvido” ou “eu quero um homem com dinheiro”. “Pegada é fundamental” ou “eu gosto de cafajestes”. Se você não atende, ou não está disposto a adquirir tais pré-requisitos, descarte logo a possibilidade de relacionamento ao invés de ficar semanas, meses ou anos tentando ganhar uma mulher que está pedindo algo que você não tem para oferecer.

Sobretudo, abandone o emocionalismo idiota. Se a mulher quer dinheiro, conforto ou ser maltratada, o problema é dela. Não perca tempo tentando mudar as mulheres. Você não vai conseguir, vai perder tempo, e isso vai se tornar uma fonte de frustração constante na sua vida. O que se deve sempre levar em consideração é que todos têm o direito de procurar aquilo que consideram ser o melhor para si. Se mais tarde a pessoa por algum motivo entender que o “melhor” que ela esteve procurando na verdade não é realmente melhor, o problema de novo é dela e não seu.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018



Por que a beleza importa?

É a pergunta que rodou o mundo após o documentário do sir. Roger Scruton. Para o filósofo inglês, a beleza importa porque somente ela pode nos dar a consolação. Além disso, o mundo é mau e a vida é sem sentido, portanto, resta-nos apenas contemplá-la. Nada mais falso!

Existir já é uma coisa boa, embora alguns se desesperem, avaliando o mundo e a própria existência para concluir que não vale a pena. Erro de cálculo. O ser e o bem se identificam.

Mas a beleza é aquilo que agrada a visão.* E o que nos agrada numa obra de arte é perceber a sua unidade que aos poucos vai se revelando numa harmonia entre o todo e as suas partes. Ela é única, é perfeita porque chegou no seu estágio final. Não há nada mais a se fazer. Basta uma pincelada, uma nota musical ou uma sílaba a mais para se extinguir toda a harmonia, arruinar toda a unidade.

A obra de arte se torna individual na sua forma. Existem inúmeras narrativas de Hamlet, mas a sua forma final é a de Shakespeare. Existem diversos Salvator Mundi, mas a sua forma final parece estar no de Leonardo da Vinci, como se pode provar assistindo ao vídeo abaixo. Uma câmera escondida capta a reação do público diante da única exposição do quadro de quase meio milhão de dólares. Mas o valor da arte não é monetário, como se pode ver nos olhares encantados, “no instante em que essa suprema qualidade de beleza, a radiação clara da imagem estética, é apreendida luminosamente pelo espírito que foi surpreendido pela sua inteireza e fascinado pela sua harmonia. É o luminoso êxtase silencioso do prazer estético”.**

Por Diogo Chiuso

___________
* S. Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q.5, a.4, c.
** James Joyce, Retratos do artista quando jovem, trad. de José Geraldo Vieira, Saraiva de Bolso, p. 227-228.




terça-feira, 30 de janeiro de 2018



Não nos cabe o silêncio das montanhas,
O silêncio de pedra, imponderável,
O silêncio que irrompe na garganta
Como o grito sem voz de um fuzilado;

Não nos cabe o silêncio dos abismos,
O silêncio da queda incalculável,
O silêncio de um corpo que se inclina,
Mas que jamais se atira; não nos cabe

O silêncio traiçoeiro de uma trégua,
O silêncio maciço de uma porta
Aberta: só nos cabe o mais infenso

Dos silêncios: aquele que se entrega
— Cabe a nós o silêncio dos silêncios —
Para cuspir uma palavra morta.

Por Pedro Mohallem
• Pintura: “Silence”, 1900 - Odilon Redon

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018



O amor, o verdadeiro amor tem um conhecimento penetrante, candente, fino, lúcido; tem um conhecimento de ressonância profunda, de identificação, de conaturalidade. O amor, o verdadeiro amor advinha, penetra, descobre, simpatiza, faz suas as aflições do outro, dá ao outro suas próprias alegrias. É compreensivo. Mas não é compreensivo no sentido que se dá a esse vocábulo, quando quer significar uma tolerância que fecha os olhos. Não. O amor verdadeiro é compreensivo num sentido maior, que não fecha os olhos, mas que também não fecha o coração. Vê as falhas do outro, vê as misérias do outro, com uma generosa inquietação, com uma piedosa solicitude. Mas vê. Vê com amor. Mas vê. E é nessa visão que ele encontra as forças de paciência para os dias difíceis, e que se defende das amargas decepções. A miséria, o defeito, a falha, apresentados pelo amor, conservam sempre a dignidade do contexto em que foram apreendidos, sem sacrifício da veracidade. Porque o amor é veraz; é verídico; é essencialmente amigo da verdade. E como compete à razão guiar a alma nos caminhos da verdade, segue-se com lógica irresistível que a razão é o piloto do amor. Mas há um amor que é efetivamente cego; um amor que não é verídico; um amor que não é compreensivo; um amor que não é transformante, e que não ressoa, que não simpatiza, que não advinha, que é inimigo da verdade. É o amor-próprio. Cegueira voluntária, o amor-próprio se compraz nas mentiras que agradam as paixões. Princípio de divisão interna, o amor-próprio divide o homem de si mesmo.

Por Gustavo Corção, em Amor, casamento, divórcio

domingo, 28 de janeiro de 2018



A noite mansa desce como uma fronte cansada. Cristo Rei amparai a minha fronte cansada dos pesadelos da vida, das angustias da hora, da inquietação dos dias dos homens! Cristo Rei iluminai a escuridão de meu espírito, enchei totalmente o espaço imenso que a iniquidade do mundo põe no cérebro de todos os seres inquietos dentro da noite longa. Não terei medo junto de meu Rei! Há lobos lá fora! Cristo Rei não me abandoneis dentro da noite longa.

Por Jorge de Lima, na Revista A Ordem, n. 83, 1937, p. 88

sábado, 27 de janeiro de 2018



Um dos meus amigos, protestante, disse certa vez a um amigo católico: - Se eu acreditasse realmente, como você diz que acredita, que o próprio Cristo está no Sacrário, eu só iria até Ele arrastando-me de joelhos ao longo de toda a nave da Igreja.

Por George Weigel, em Cartas a um jovem católico

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018



Fazei com que vossas casas sejam casas cristãs. Que nela o rei seja o Sagrado Coração
de Jesus. Que a imagem de Jesus Crucificado e da Virgem Maria tenham postos de
honra, para fazer manifesto aos olhos de todos que em vosso lar se serve a Deus.

Pelo Papa Pio XII

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018



Jamais dê todo o coração

Jamais dê todo o coração.
Mulheres passionais não dão
Valor para o amor que parece
Seguro. Ignoram que esvaece
De beijo a beijo, porque deve
Ser um enlevo, um sonho breve.
Um típico deleite incerto.
Jamais dê o coração aberto
Àquelas que seduzem logo,
Ao dar seus corações em jogo.
Bobo e cego de amor, porém,
Quem poderia jogar bem?
O custo disso ele entendeu.
Dando seu coração, perdeu.

Por W. B. Yeats
• Tradução de Wagner Schadeck

domingo, 14 de janeiro de 2018



Seria melhor aceitar o inevitável da imitação, para imitar somente coisas boas. Os antigos tinham as suas razões. Grandeza sem modelos? Era inconcebível. Ninguém podia ser a coisa em si - realidade. Era necessário contentar-se com símbolos. Faça disso o objeto da imitação e libere as qualidades mais altas. Estabeleça, pois, a paz com os intermediários e a representação. Mas escolha as representações mais altas, mais dignas, do contrário o indivíduo transformar-se-á no fracasso que agora vê e sabe que é.

Por Saul Bellow, em O Planeta do Sr. Sammler



O ridículo dos idólatras de políticos

“(...) aqueles que acreditam em ídolos inúteis, desprezam a misericórdia.” Jonas 2, 8

Para o eleitorado dos dois primeiros colocados nas pesquisas, política é uma questão de fé. Para seus seguidores, as palavras de Lula ou de Bolsonaro são como sunas ditas pelo profeta Maomé. A atitude de encarar o lulismo como uma questão de redenção e salvação não assusta ninguém, visto o caráter messiânico do socialismo. A perfeição de ambos os deuses, para seus crentes, é inquestionável. Nem o mais claro indício de corrupção é levado em consideração por um segundo. A reação é a mesma de um wahhabista: a culpa é dos infiéis.

Para o eleitorado dos dois primeiros colocados nas pesquisas, política é uma questão de fé. Para seus seguidores, as palavras de Lula ou de Bolsonaro são como sunas ditas pelo profeta Maomé. A atitude de encarar o lulismo como uma questão de redenção e salvação não assusta ninguém, visto o caráter messiânico do socialismo.

A perfeição de ambos os deuses, para seus crentes, é inquestionável. Nem o mais claro indício de corrupção é levado em consideração por um segundo. A reação é a mesma de um wahhabista: a culpa é dos infiéis. Para o lulista, as inúmeras provas dos crimes cometidos por Lula são meras convicções de procuradores e juízes; as notícias sobre seus crimes, uma conspiração da mídia de direita.

Na mesma toada seguem os Bolsonaro e seus adoradores. Se a mídia imputa que o pré-candidato tem embolsado, ao longo de anos, um auxílio-moradia irregular, tudo é “mentira da mídia petista”. Quando se descobre que ele emprega uma funcionária fantasma como caseira de sua residência de verão em Mambucaba, Angra dos Reis, “estão tentando desviar o foco dos crimes de Lula”. Se descobrem que usa um assessor do seu filho, administrador da página Carteiro Reaça, para incitar ataques àqueles que discordam da plataforma da família Bolsonaro, “são leviandades”.

Nessa religião, não existem apenas aqueles que acreditam piamente que sua divindade – chamado de Mito – seria incapaz de se corromper. Há, sim, os que entendem a ilegalidade dos seus atos. “Mas o que é esse pouquinho perto do quanto Lula roubou?”, dizem estes últimos. Ou, “todos roubam, pelo menos este é melhor que os outros”. E assim, se aproximam do petismo, seu nêmesis político, justificando a corrupção em nome de sua crença inabalável em um político.

Desde 2014, Lula, Dilma e as estrelas do PT se transformaram em temática de decoração de festas de aniversário. À semelhança, festas temáticas com a foto do Mito viraram um fenômeno entre as crianças e jovens de todo o país. Noivos entregam-se as alianças metidos em camisetas com a foto de seu ídolo, Bolsonaro. À semelhança de um deus, Bolsonaro foi elevado e incensado aos altares por seus fiéis.

O puritanismo relativo, à maneira do islã, persiste também nessas novas religiões da política brasileira. O profeta Lula chamar mulheres viris de “grelo duro”, mas o petismo condenar o machismo onde não existe. Da mesma forma, vimos Bolsonaro proclamar seu horror seletivo à “promiscuidade” nos últimos anos, mas deixar registrado para a história que o seu auxílio-moradia foi usado para “comer gente”, como disse à Folha.

Como os petistas, os bolsominions criaram sua própria Santa Inquisição. Na internet, atacam e perseguem todos aqueles que ousam discordar da palavra do Mito, que é uma espécie de senhor sacral. A “caça aos comunistas” virou a nova palavra de ordem no âmbito do tribunal instantâneo. O sinônimo do infiel, na religião bolsonariana, é o “esquerdista”. Quem ouse imputar erros à sagrada figura de Jair, o Messias, por mais que tenha impecáveis credenciais à direita, recebe como galardão a foice e martelo na testa, e a pecha de “vermelho”. Não seria isto uma reedição das constantes caças às bruxas promovidas pelo petismo no auge do governo Dilma, com novos protagonistas?

Uma hora, o ídolo de barro feito por mãos ignorantes será quebrado. Em algum momento, Bolsonaro irá derreter nas urnas e sua canastrice será exposta para o eleitor. Pensando nesse futuro, fica a minha pergunta: o que será daqueles que o tinham como deus? Cozinharão um porre de ressaca moral? Fingirão que os momentos de idolatria nunca aconteceram? Sustentarão sua cegueira e o dogma de que existe uma perseguição em curso contra um homem honesto e puro? Ou irão à caça de um novo ídolo, como fizeram uns com Lula, e outros tantos com o deputado carioca?

Deus tenha misericórdia – à maneira de Eduardo Cunha – de um país que alça políticos à categoria de ídolos, pois “aqueles que acreditam em ídolos inúteis, desprezam a misericórdia” (Jonas 2, 8).

Por Lucas Baqueiro

sábado, 13 de janeiro de 2018



A ditadura dos impostos

A carga tributária nos faz funcionários públicos sem 
concurso e sem direitos. E o nome disso é escravidão

Sempre que nasce um brasileiro, acende uma luzinha vermelha lá em Brasília e um funcionário grita:

— Chegou mais um contribuinte!

Na verdade, essa palavrinha do funcionário já é uma afronta. Contribuinte, como diria o Padre Quevedo, non ecziste. O que existe é pagador de impostos.

A vida do brasileiro consiste em pagar impostos. Você paga para trabalhar (IR), para ocupar lugar no espaço (IPTU), para se locomover (IPVA), para prestar algum serviço (ISS), para vender ou comprar alguma coisa (ICMS), e assim por diante. Mas esses são os impostos que têm nome e boleto. Há uma infinidade de impostos ocultos, embutidos em tudo que você faz. Comer, beber e dormir são verbos sujeitos à tributação. A vida tornou-se alíquota; viver, um boleto.

Hoje cada um de nós trabalha até maio só para pagar impostos; quase metade do que ganhamos vai direto para as mãos do governo. Por muito menos — 20%, o quinto dos infernos — Tiradentes e seus amigos (entre eles um traidor) fizeram a Inconfidência Mineira.

De certa forma, somos todos funcionários públicos não concursados, com a diferença que não temos estabilidade nem podemos fazer greve. Se isso não é escravidão, o que é?

Mas não é só o governo formal que cobra impostos. Os donos do mundo e justiceiros sociais também estão de olho em você, pobre leitor. O que é a imposição de agendas “progressistas” (aborto, ideologia de gênero, liberação das drogas, impunidade de criminosos, lavagem cerebral nas escolas) senão uma forma de cobrar imposto ideológico sobre o cidadão comum?

Os dois piores tributos, no entanto, não são econômicos nem ideológicos. Estou falando do imposto sobre a vida e do imposto sobre a inteligência. O primeiro é o imposto dos assassinatos, que levam 70 mil brasileiros por ano, um a cada 9 minutos; o segundo é o imposto do analfabetismo funcional, que está criando uma geração de brasileiros incapazes de ler e escrever, graças ao pior sistema educacional do mundo, patrocinado por Paulo Freire e seus companheiros. A simples existência desses outros dois impostos demonstra que o liberalismo é importante, mas não resolve tudo. Todo aquele que promete salvar o país somente com medidas liberalizantes é parte do problema, não da solução.

Ainda não sei quanto vou pagar de IPTU neste ano. Mas, pelo que andam dizendo, minha cara ao receber o boleto vai ficar parecendo a famosa tela "O Grito", de Edvard Munch. Quando da votação do novo IPTU na Câmara de Vereadores, eu já havia dito que os favoráveis estariam decretando sua morte política. E isso por um motivo muito simples: ninguém aguenta mais pagar imposto no Brasil. Toda e qualquer revisão do IPTU, em minha opinião, só seria aceitável como parte de uma profunda reforma administrativa, não apenas com a redução temporária de despesas, mas com extinção de secretarias, congelamento de salários, programa de demissões voluntárias, privatização de empresas públicas (no caso, a Sercomtel) e outras medidas semelhantes.

Do contrário, só teremos choro e ranger de dentes.

Por Paulo Briguet